
Nesta última terça feira recebi minha quinta dose de quimioterapia.
Pela primeira vez tive a companhia e os cuidados da Thais.
Incrível como os filhos são tão diferentes e tão iguais. Foi atenciosa e prestativa, como a Patricia também o foi, nas quatro anteirores.
Chegamos as duas da tarde e só saímos as sete da noite, sendo que a aplicação mesmo, só começou às quatro.
Nesse tempo todo, estivémos na sala de espera. Um entra e sai sem fim, de médicos, enfermeiras e pacientes muito pacientes.
Estava esperando minha hora quando vejo chegar uma senhora sorridente que me cumprimentou, ainda de longe, com um "oi, tudo bem?".
Dirigiu-se a recepção, falou com as atendentes, e retornou, chegou perto de mim e disse: Oi, querida! Vim marcar a minha quimio, fiz na semana passada. Ainda tenho 16 radio (radioterapia) e depois mais 4 quimios. Nossa,vc acredita que ainda tenho gosto de metal na boca!!!(e riu) E vc, como esta?
Na verdade, confesso que não me lembrava de ter falado com ela antes, mas não tomem isso como displicência de minha parte, é que a quimio "queima" um pouco a minha memória recente, além de "alterar" rapidamente a aparência daqueles que se submetem a esse tratamento.
Mas como ela já havia me cumprimentado na chegada e se dirigido diretamente a mim, supus que já houvéssemos conversado anteriormente.Agora, com ela mais perto observei melhor.
Estava tão bonita e elegante! Usava um vestido de tecido levinho, claro, com uns pequenos detalhes em amarelo, uma bolsa grande, moderna, amarela, um chapéu claro, de abas largas e uma fita com laço, tb amarelo. Mas, mais que tudo, seu rosto estava lindo, com uma leve maquiagem, as sombrancelhas desenhadas a lápis, um batom colorido nos lábios.
Contei que estava aguardando minha vez, para a penultima!!! E que o tratamento estava indo muito bem. E acrescentei, no final do nosso curto diálogo: Vc tá linda! Tá muito bem! Ela respondeu: Vc tb tá ótima. Tudo de bom pra vc! Trocamos beijinhos e ela se foi, sorridente.
Aquela cena ficou gravada em mim.
Ontem a Patty começou a me falar sobre um livro que ela está lendo(Amor, Medicina e Milagres - Bernie S. Siegel)e que classifica a nós, pacientes portadores de câncer, em três categorias:
- Aqueles que querem morrer, consciente ou inconscientemente, portanto ao tomarem conhecimento da doença ignoram, não aceitam, ou fazem pior, aceitam como sentença fatal.
- Aqueles que fazem tudo o que lhes mandam fazer, desde que não exija alteração radical na sua vida, que esperam que os remédios e os médicos sejam os únicos responsáveis pelo tratamento e cura.
- E os que, em menor número, entre 15 e 20%, não querem fazer o papel de vítimas, que aprendem a especialidade de cuidar de si mesmos. Exigem dignidade, personalidade e controle, seja qual for a evolução da doença. Não esmorecem, discutem alternativas, ou seja,lutam pela suas vidas, lutam bravamente contra a doença, e por isso são chamados de PACIENTES ESPECIAIS.
Na hora me veio a mente a figura elegante de minha "amiga" de chapéu com laço amarelo;depois no rapaz de vinte e cinco anos que já se sentou por duas vezes ao meu lado, na sessão de quimio, que não consegue chegar ao final sem que as reações comecem, mas chega sempre sorridente; naquela outra senhora que mesmo sentada ali, brinca com todas as enfermeiras, todos os paciente, ri alto e fala de suas possiveis paixões, e na minha amiga Vera, que tem uma fé inabalável, que sempre me diz: estamos curadas, não tenha dúvidas.
E disse isso a Patricia, que me respondeu: Você também é uma Paciente Especial!
Tenho certeza de que aqueles que tem convivido comigo me considerem muito mais uma
IMPACIENTE ESPECIAL, do que qualquer outra coisa.
Sempre digo que tenho agido, diante do câncer, como reajo diante de todas as coisas da minha vida. É o meu jeito, não sei ser diferente disso, e não acho que isso me torne "especial".Não me dispus a lutar "especialmente" contra a doença, sou tão teimosa que estou sempre disposta a lutar contra TUDO com que eu não concorde. E posso garantir, não concordo nenhum um pouco com essa doença, menos ainda com suas reações e consequências.
No entanto, estou certa que ESPECIAL é a oportunidade que esta me sendo dada, de lutar pela minha vida, de rever meus valores, de buscar mais as bençãos que Deus tem preparado para mim, da Sua presença e do Seu cuidado para comigo.
Especial é o privilégio de conhecer pessoas fortes e lutadoras, que não esmorecem, que usam chápeus com laço amarelo e batom nos lábios, e que sorriem ao dizer: tenho 16 radio,e mais 4 quimio, e estou ótima! Estas sim, são PACIENTES ESPECIAIS.